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Out 11
Viver e Saber

Fervilhou nos meios de comunicação a propaganda com roupas íntimas realizada pela topmodel Gisele Bündchen. A modelo aparece no comercial dando informações ao marido sobre fatos ocorridos.

São três diálogos que descrevo: “(1) amor estourei meu cartão de crédito e também o seu; (2) mamãe vem morar conosco; (3) bati seu carro”. Enfatiza o comercial que o jeito ERRADO de dar a notícia é vestida e o CERTO é com roupas íntimas.
Não desejo ficar no papel do chato que enxerga coisas onde os outros não vêem, mas quero mostrar aspectos camuflados do comercial, que entendo como abusivos a boa saúde das relações conjugais.

A propaganda expõe uma esposa avessa ao diálogo, ao contrário “empurra goela abaixo” do marido situações consumadas. As cenas mostram um estereótipo bem badalado de mulher, mas,ao meu ver, que lida mal com sua vida. Não cuida adequadamente do uso que faz com dinheiro, decide unilateralmente que a mãe virá morar com eles e que parece também não ter tido o cuidado com o carro do esposo.

O comercial sugere que a sedução sexual dá resultados e é um bom caminho para ser seguido pelas mulheres diante de dificuldades. Na nossa cultura o corpo feminino é supervalorizado, em detrimento ao intelecto, aos afetos e ao jeito de pensar da mulher. Lembro de um ditado que desqualifica a conversa em detrimento do sexo, que diz: “os problemas do casal se resolvem na cama”.

É evidente o pouco caso que faz desse marido, que soa na propaganda como um paspalhão, que aceita este padrão de vínculo, em que o dinheiro é um elo forte para se manter uma relação À idéia subliminar é que o companheiro aceita relacionar-se na linha de “me engana que eu gosto”. Em nossa cultura, os homens tendem a escolher a mulher pelo seu corpo e sua beleza. O inverso também é verdadeiro, muitas mulheres olham para o homem bonito e que aparenta poder.

As dificuldades conjugais decorrem da incapacidade dos casais saberem conversar. Observo fatores que deterioram o convívio, como: relações de domínio e de submissão, nas quais um dos cônjuges tenta mandar no outro; a pouca capacidade dos cônjuges serem verdadeiros em relação ao que sentem e pensam; e a sexualização exagerada da relação.

O que ficará no imaginário das crianças vendo esse comercial? “Terei resultados,quando crescer, se oferecer meu corpo nas horas difíceis da vida conjugal; o corpo é um instrumento de poder sobre os homens; para eu me sentir valorizado preciso ser uma mulher bonita e atraente”. Os meninos também incorporam esta idéia do corpo como o que manterá a relação.

Tenho alertado em palestras, entrevistas e workshop sobre os abusos e maus tratos psíquicos do cotidiano. É sabido que os abusos sexuais, físicos, morais são fatores de levam ao adoecimento mental, mas os verbais e os transmitidos pelas imagens são igualmente adoecedores.

Os psiquiatras e psicoterapeutas não têm nenhum instrumento ou exame para medir e mostrar os resultados nocivos destes abusos, mas eles são percebidos claramente nas terapias, como fatores desencadeantes do adoecimento emocional. Os resultados são ansiedades e estados depressivos que não estão relacionados a transtorno da química cerebral.

Diz à agência que criou a propaganda: “fica óbvio que se trata de uma brincadeira e em hipótese alguma como uma depreciação da figura feminina... que a sensualidade da mulher brasileira, pode ser uma arma eficaz no momento de se dar uma má notícia.”.

Nada é óbvio na vida. Brincadeiras também causam grandes sofrimentos e danos na vida das pessoas. Sim, o comercial sugere a depreciação da figura da mulher e do homem. O pior, diz a agência, é que a sensualidade pode ser uma arma eficaz para uma má notícia. Alô meninas, larguem os estudos e os sacrifícios para se tornarem alguém na vida, façam um curso para usarem a sensualidade e subirem na vida! Preferia que as mulheres brasileiras fossem reconhecidas mundialmente por sua inteligência, integridade, afetividade e também pela sensualidade e sexualidade.

Para se dar uma má ou boa notícia só se tem um CAMINHO. Ser verdadeiro, respeitoso, claro e direto. O resto é “um grande faz de conta” e este tipo de relacionamento enganador é um bom caminho para o adoecimento emocional e uma arma eficaz para deteriorar as relações conjugais.

Não estou querendo condenar as agências de propaganda. Acho que os criadores não percebem o conteúdo subliminar nocivo que está embutido em muitos comerciais, como também o leigo não tem ferramentas para olhar com mais atenção o que a publicidade nos oferece.

Dr.Nélio Tombini
Responsável pela Psiquiatria da Santa Casa de Misericórdia
Diretor da Psicobreve
tomba@terra.com.br

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