20
Ago 12
Viver e Saber

Autor do artigo: Dr. Nelio Tombini - Psiquiatra e psicoterapeuta

Responsável pela Psiquiatria da Santa Casa de Porto Alegre e Diretor da Psicobreve

A pedofilia é um problema muito maior do que imaginamos. Os casos de pedofilia denunciados não devem representar mais do que dez por cento dos abusos sofridos. Por que estou trazendo esse assunto para reflexão?  Pela gravidade do fato em si e pelas graves repercussões causadas na mente dos abusados e nas relações familiares. Esse trauma desenvolve um adoecimento mental em cascata, pois quando os abusados crescem, provavelmente, terão dificuldades de aproveitarem a vida afetiva e sexual, bem como de relacionarem-se intimamente com as pessoas.

As meninas são as maiores vítimas. A criança, além de sofrer pelo abuso, sofre também em decorrência do temor de revelar esse terrível segredo, pois o abusador, geralmente, faz ameaças para que não revele a ninguém. Outra dificuldade presente decorre do temor da criança de revelar o abuso e não acreditarem nela. Quando consegue contar o trauma ocorrido corre o risco de a mãe não acreditar que o pai ou algum outro adulto próximo estariam abusando-a. O pior é  quando a criança escuta do(s) pai(s) que ela também foi responsável pelo abuso, pois sua maneira de ser, falar ou vestir-se provocou o abusador. Esse tema tem sido alvo de muita divulgação e discussão, mas os pedófilos estão presentes no nosso dia a dia e não conseguimos perceber suas presenças, já que, na maioria das ocorrências, são pessoas muito próximas e bastante dissuadidas.

 

Costumamos falar precocemente aos nossos filhos sobre os cuidados relacionados com os riscos inerentes ao viver, tais como: o fogo, animais, eletricidade, trânsito e com os tipos de coisas que não devem comer, ingerir, tocar, etc. Por outro lado, não fazemos alertas sobre cuidados com sua privacidade e intimidade corporal.

Por isso, desejo enfocar nesse artigo a necessidade de educarmos as crianças para que possam ter alguma proteção contra os pedófilos. Por que não nos lembramos de falar nos riscos de pessoas tocarem em seus corpos? Porque somos cheios de preconceitos e tabus em relação à sexualidade que deixamos as crianças sem nenhuma proteção contra a pedofilia.

Estes ensinamentos podem iniciar-se em torno dos dois anos de idade. Significa falarmos abertamente para as crianças sobre o aspecto “sacro e intocável” dos seus corpos. Sim, dizer claramente à criança que não deve deixar nenhuma pessoa tocar no seu corpo, acariciar ou tirar sua roupa. Na mesma linha, ensiná-las a não tocar no corpo de pessoas mais velhas ou ficar nu com elas. A nossa cultura coloca a criança no papel de uma pequena “deficiente mental”, ou seja, a tratamos como se ela não pudesse entender as coisas da vida.

Acredito que essa é uma abordagem que fará a diferença, pois a criança estará mais aparelhada para detectar abordagens dessa natureza. Além do mais, ela sabe que poderá contar ao pai ou a mãe algum abuso, sabendo que esse assunto não trará mal-estar na família porque já foi falado pelos familiares.

É importante frisar, que o pedófilo sofre de uma doença mental grave  e que, geralmente, ele não reconhece a presença dessa desordem mental, logo não acha que precise de tratamento. Também, é importante relatar que a psiquiatria não conhece  a origem dessa perversão. Lembro de um pedófilo que chegou a mim, em decorrência de pressões familiares e da justiça, mas que não tinha nenhum sentimento de que precisasse de ajuda.

Uma maneira de diminuir a ação dos pedófilos seria a possibilidade legal de optarem pela castração química, o bloqueio da testosterona. Essa intervenção diminui o desejo sexual incontrolável do pedófilo. Pesquisas mostram que a reincidência de crimes sexuais cai de 75% para 2% após a castração química. Essa pena já é aplicada em vários países.Esse projeto está parado no Senado Brasileiro.

Dr. Nelio Tombini

Psiquiatra e psicoterapeuta

Responsável pela Psiquiatria da Santa Casa de Porto Alegre

Diretor da Psicobreve

Comentarios (1)

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Excelente texto!
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Excelente texto Dr. Nélio Tombini! Esse tema é algo tão chocante que deveria ser discutido com mais frequência e sem receios, pois a todo instante crianças sofrem e têm seu futuro comprometido bem debaixo dos nossos olhos. Precisamos despertar para combater esse mal!
Fabiana Alves Pereira , outubro 04, 2017

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