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Fev 12
Viver e Saber

Desde que o homem vivia nas cavernas, mesmo antes de falar, através das mãos, ele procurou se manifestar – deixando as suas impressões no que é conhecido como arte rupestre. Mais adiante, os grandes filósofos – Platão e Aristóteles – emitiram as suas opiniões, diferentes e conflitantes, sobre a definição de arte. Outros filósofos, como Clive Bell, Morris Weitz, George Dickie, Nelson Goodman e outros, encontraram as mesmas dificuldades.

 

Este assunto tem me intrigado nos últimos trinta anos e, também, chego à conclusão de que não existe uma definição única para o que abrange e caracteriza a definição de arte. Como o belo sempre me impressionou, tanto na natureza como nos feitos do homem, o que mais importa, a meu ver, são as belas artes. De modo que, através destes escritos, procuro dar a minha contribuição.

A obra de belas artes é diferente da arte abstrata, assim como fazer barulho com um tambor não é música. A pintura baseada no desenho não é imitação fotográfica e, sim, a representação pelos olhos do artista, com a finalidade de atingir o espectador. Lembro, por exemplo, que a Igreja do Bom Fim, em Porto Alegre, foi representada por dezenas de artistas, de diversas maneiras, mas, todos dela lembram pelas suas características peculiares.

A produção de uma obra de belas artes é uma realização de engenho, não é risco-e-rabisco - realmente não aprecio nem entendo, e acho pobre, bandeirinhas, riscos-e-rabiscos, pontinhos, manchas obscuras e urinóis. A obra de arte é facilmente reconhecida, mas não facilmente imitada; fala por si só, e não exige explicações. Por razões complexas, também sabemos que pode ser abstêmia no mercado de arte. No Rio Grande do Sul, temos vários exemplos de artistas que não estiveram no mercado de artes, e trabalharam para deixar um legado, mais em obras públicas ou atividades educativas, dando ênfase ao Belo. Como exemplo, temos Caringi, Locatelli, Oscar Boeira, Fahrion e Scheffel.

Como nas demais obras de arte em geral - literatura, escultura, música, teatro, fotografia, cinema e outras - algumas provocam emoções, pois identificam lembranças agradáveis, ou desagradáveis. Na pintura, exemplifico o romantismo de Boticcelli, com Primavera e, de outro lado, a violência de Goya, com as Desgraças da Guerra, ou, ainda, o famoso quadro de Picasso, que representa a morte de um toureiro, mas que, graças a um exitoso marketing político, ficou mundialmente conhecido como Guernica. Na música e na pintura existem muitos artistas de vanguarda, como Debussy, Mahler, Wagner, Bosch, Brueghel, que vieram para ficar, como estrelas no nosso firmamento, ao contrário de artistas em movimentos que acompanharam revoluções políticas e sociais contestadoras, que se comportaram como cometas: brilhantes e fugazes.

Por outro lado, exemplifico o meu apreço por outras “Belas Artes”, como as obras de Klimt e Vigeland (em Oslo), Stockinger, Vasco Prado, com a “Moça Roubada”, o “Monumento aos Açorianos”, do Tenius, ou os muralistas mexicanos, Diego Rivera, Siqueiros, O'Gorman, e outros, todos modernos e atuais com valores permanentes.

Também, registro como exemplo menor de contestação política o oportunismo de Kandinsky, quando assalariado pela CIA, cuja obra também não tem as propriedades essenciais de uma “Bela Arte”.

Também, entendo que a minha conceituação de obras de Belas Artes abrange a música dodecafônica (atonal), pois durante anos acompanhei o trabalho em Florença (Itália), de Arrigo Benvenutti, professor do Scheffel, como também sempre gostei do Serialismo, de Anton von Webern, com os seus silêncios, que no Brasil foi magistralmente interpretado pelo Prof. Hans Koellreuter, como também não devemos esquecer o brasileiro Cláudio Santoro. Aquelas notas sem superioridade de harmonia e de tonalidade, indiscutivelmente, são uma obra de engenho e de Belas Artes. Aproveito para lembrar, neste momento que me vem à mente, o fabuloso Claudiomiro Kaspary, compositor e exímio pianista, recentemente falecido, colega de Zubin Mehta, durante seis anos em Viena, Áustria, que não teve reconhecimento local e, também, não participou do marketing cultural, apesar de seus trabalhos de vanguarda na Universidade da Califórnia, USA.

No cinema, nos sensibilizamos, tanto com cenas românticas, quanto com cenas de formidáveis violências. Entretanto, lembro que, por melhor e mais criativo que seja o enredo de um filme, a falta de técnica no som e imagem o torna quase impossível de agradar. O mesmo ocorre nas atividades olímpicas e circenses, quando nos emocionamos e admiramos a técnica, a habilidade, a criatividade, a novidade e a raridade.

O meu entendimento dos valores universais ao classificar o belo é semelhante ao dos juízes de certames em exposições de animais ou orquídeas, ou ainda, ao dos fotógrafos de concursos de beleza, os quais costumam contemplar critérios entre os quais não há lugar para o que é reconhecidamente não-belo.

O que nos fascina, e nos desperta profunda admiração, em relação ao artista de qualquer atividade artística, são suas excepcionais qualidades na feitura da obra de belas artes, que diz respeito a muito poucos, e que se traduz no espectador por uma gama enorme de emoções e sentimentos, que vão do arrepio às lágrimas, da identificação à frustração, da alegria à tristeza.

Tenho a impressão que, entre os cento e setenta milhões de brasileiros, apenas 0,01% (dezessete mil) freqüenta exposições e galerias, ao contrário, quando se trata de uma exposição de Renoir, o público chega a milhões. Este tema também deveria ser aprofundado.

Segundo pesquisa feita pelo site ClicRBS, por ocasião de uma Bienal em Porto Alegre: 75% não gostaram ou não entenderam, e custou para os patrocinadores muitos milhões. Este assunto também se prestaria para uma discussão.

Por todas estas razões, entendemos que a obra de belas artes é aquela que atinge a alma e desperta no espectador emoções e sentimentos estéticos pelas suas excepcionais qualidades artísticas.

Autor: Dr.Rolf Udo Zelmanowicz

Médico e Fundador do Site ABCDASAÚDE.COM.BR

Fundador do Grupo APLUB e da Pinacoteca APLUB de Arte Rio-Grandense

Conceituação por Rolf Zelmanowicz*, já que definição é próprio dos gênios que enxergam no escuro.

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